A investigação que resultou na Operação Cathedra Venalis apura a suspeita de pagamentos periódicos de R$ 10 mil a vereadores de Várzea Grande, além de possíveis ameaças, pressões políticas e movimentações financeiras consideradas atípicas.
Os elementos constam da decisão judicial que autorizou os mandados de busca e apreensão cumpridos pelo Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco) nesta semana. A apuração investiga suspeitas de corrupção e possível atuação de uma organização criminosa relacionada à administração da Câmara Municipal e à disputa pela Mesa Diretora.
Entre os materiais analisados está uma conversa atribuída a Carlos Cesar Bocão, na qual são mencionados supostos repasses mensais de R$ 10 mil a vereadores, por intermédio da estrutura do Legislativo.
A própria decisão, porém, registra que essa informação tem caráter declaratório e ainda precisa ser confrontada com outros elementos de prova.
Relatórios do Coaf entraram na investigação
A apuração também utiliza dados de dois Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) produzidos pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
Segundo os documentos citados na investigação, foram identificadas movimentações envolvendo investigados, familiares, assessores, servidores públicos e pessoas jurídicas relacionadas ao grupo.
Entre as operações que chamaram a atenção dos investigadores estão transações em dinheiro vivo, transferências entre pessoas ligadas aos investigados e movimentações que, segundo os relatórios, não apresentariam justificativa aparente.
O registro de movimentação atípica, entretanto, não significa automaticamente que houve crime. Os dados financeiros integram um conjunto mais amplo de elementos que ainda será analisado no decorrer da investigação.
Áudios e documentos foram entregues ao Gaeco
Parte das informações utilizadas na apuração foi encontrada em arquivos extraídos de um dispositivo eletrônico apresentado ao Gaeco pelo vereador Caio Cordeiro.
De acordo com a decisão, o material inclui conversas, áudios, comprovantes de pagamentos, notas promissórias e registros relacionados a supostas ameaças.
Os investigadores analisam se esses documentos ajudam a reconstruir a dinâmica das articulações políticas dentro da Câmara de Várzea Grande e eventual oferecimento de vantagens em troca de apoio político.
Reportagens que tiveram acesso a trechos da investigação apontam ainda que o procedimento apura a possível utilização de cartas de renúncia previamente assinadas e gravações de entregas de dinheiro como instrumentos de pressão sobre parlamentares. Essas suspeitas continuam em fase de investigação.
Investigação aponta ambiente de pressão política
Os relatórios também descrevem um ambiente de forte disputa política dentro do Legislativo de Várzea Grande, com referências a pressões, ameaças, oferecimento de vantagens e negociações relacionadas à formação de grupos de apoio.
Um dos eixos analisados envolve a relação entre Caio Cordeiro e integrantes do grupo político ligado ao então presidente da Câmara, Wanderley Cerqueira (MDB).
Segundo a investigação, Caio teria mantido proximidade com Wanderley durante parte do período analisado e, posteriormente, rompido politicamente com o grupo.
O afastamento ocorreu em um contexto de disputas envolvendo, entre outros assuntos, a tentativa de instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar contratos e serviços do transporte coletivo de Várzea Grande.
Operação investiga suposto esquema na Câmara
A Operação Cathedra Venalis foi deflagrada para apurar suspeitas de corrupção e outros crimes contra a administração pública.
A investigação alcançou 13 vereadores de Várzea Grande e dois parlamentares de Cuiabá, além de servidores ligados ao Legislativo várzea-grandense. Ao todo, foram expedidos 30 mandados de busca e apreensão em Cuiabá, Várzea Grande e Chapada dos Guimarães.
Entre as hipóteses investigadas está a existência de um mecanismo de pagamento mensal a vereadores, além de eventual distribuição de cargos e outras vantagens para assegurar apoio político dentro da Câmara.
Os aparelhos eletrônicos e documentos apreendidos durante a operação deverão passar por análise. O material será confrontado com depoimentos, movimentações financeiras e outros elementos já reunidos pelo Gaeco.