O avanço das marcas chinesas começa a alcançar um território antes considerado reservado a fabricantes europeias de luxo praticamente inalcançáveis.
A Hongqi deixou de depender apenas de limusines oficiais e agora conquista consumidores que tradicionalmente procuravam automóveis da Rolls-Royce na China.
Segundo um relatório da Nikkei Asia, a fabricante estatal atravessa uma fase de forte expansão entre compradores de altíssimo poder aquisitivo.
O país reúne uma quantidade de milionários equivalente à população da Noruega, criando um mercado amplo para veículos caros e altamente personalizados.
Durante anos, parte relevante desse público escolheu a Rolls-Royce, que teria vendido aproximadamente 1.600 automóveis na China em 2021.

Esse volume levou a marca britânica a desenvolver diversos projetos exclusivos para clientes chineses, mas a procura diminuiu consideravelmente desde então.
As vendas anuais da Rolls-Royce no país caíram para cerca de 700 unidades, abrindo espaço para uma concorrente doméstica crescer rapidamente.
Fundada em 1958 e pertencente ao estatal FAW Group, a Hongqi ficou conhecida inicialmente pelos carros utilizados por autoridades governamentais.
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Seus modelos antigos eram grandes, discretos e parcialmente luxuosos, mas não tinham como prioridade conquistar compradores comuns nas concessionárias.
A estratégia mudou depois de 2018, quando a empresa decidiu ampliar sua atuação comercial e construir uma gama voltada ao público particular.

Atualmente, a oferta inclui veículos mais acessíveis, além da limusine L5 e do utilitário LS7 posicionados no segmento superior.
Sob a divisão Golden Sunflower, a Hongqi vendeu 1.400 automóveis de luxo no ano passado, o dobro do volume atual atribuído à Rolls-Royce.
Esses modelos partem de US$ 200.000 (R$ 1,1 milhão), mas os valores aumentam rapidamente conforme acabamento, personalização e configuração escolhida.
Um exemplar especial foi vendido em abril por US$ 1,6 milhão (R$ 8,9 milhões), enquanto outros passam facilmente de US$ 1 milhão (R$ 5,6 milhões).
A preferência crescente por marcas nacionais ajuda esse desempenho, refletindo maior confiança na indústria chinesa e também um sentimento de valorização doméstica.

Chegar a um evento sofisticado num automóvel produzido localmente pode transmitir prestígio, influência e proximidade com a identidade econômica do país.
Fabricantes norte-americanas exploram lógica semelhante com versões como Ford F-150 Platinum e acabamentos Denali oferecidos pela GMC em seus modelos.
A Hongqi agora prepara uma expansão para a Malásia, levando consigo os produtos mais caros e representativos de seu catálogo.
A marca já atua em Singapura, Tailândia e Indonésia, ampliando gradualmente sua presença em mercados importantes do continente asiático.
Na Austrália, prevista para receber a fabricante neste ano, o utilitário elétrico E-HS9 ocupará a posição de principal modelo da linha.

A chegada ao Reino Unido também é esperada antes do fim do ano, colocando a Hongqi diretamente no território de tradicionais fabricantes britânicas.
Parte dos consumidores locais continuará preferindo automóveis produzidos no próprio país, mas outros poderão buscar uma proposta diferente e igualmente personalizada.
O verdadeiro teste será comprovar se a qualidade acompanha os preços, especialmente quando um veículo se aproxima da faixa de sete dígitos.
Nesse patamar, ser apenas competente não basta, pois materiais, atendimento, exclusividade, acabamento e experiência precisam justificar cada parcela do valor cobrado.

A Hongqi conta com Giles Taylor, ex-chefe de design da Rolls-Royce, para compreender melhor as expectativas dos compradores ocidentais de luxo.
Sua participação oferece conhecimento direto sobre proporções, identidade e detalhes valorizados por clientes acostumados às marcas mais tradicionais do segmento.
A indústria chinesa evolui em velocidade elevada e já não pode ser resumida apenas à produção de automóveis baratos para mercados sensíveis a preço.
Cada vez mais fabricantes do país avançam sobre categorias sofisticadas, desafiando empresas que durante décadas pareciam protegidas de qualquer nova concorrência.
