A interrupção dos atendimentos oferecidos pelo Centro de Atividades Multidisciplinar de Apoio Pedagógico Inclusivo (CAMPI), em Várzea Grande, vem causando transtornos a famílias de crianças neurodivergentes e com deficiência. Nove meses após o encerramento do contrato entre a unidade e a Secretaria de Estado de Educação (Seduc), pais relatam dificuldades para conseguir atendimento pela rede estadual e casos de regressão no desenvolvimento dos filhos.
As reclamações chegaram ao presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT), conselheiro Sérgio Ricardo, que recebeu representantes das famílias e anunciou que a situação será apurada pelo órgão.
“É uma vergonha o atendimento às crianças neurodivergentes e com deficiência no estado de Mato Grosso. Interrupção do tratamento é regressão da criança. É corte na evolução. Todo trabalho anterior é jogado fora”, afirmou Sérgio Ricardo.
O CAMPI atendia cerca de 1,2 mil crianças, segundo os relatos apresentados ao Tribunal. O contrato com a Seduc, de acordo com as informações levadas à reunião, tinha custo mensal de R$ 980 mil e foi encerrado em dezembro de 2025.
Famílias relatam meses sem atendimento
Segundo o diretor-geral do CAMPI, Anacleto Giraldelli Bezerra, a Seduc havia informado, em novembro de 2025, que tinha interesse na renovação do contrato. Em dezembro, porém, a secretaria comunicou que não haveria renovação e que os serviços seriam interrompidos imediatamente.
Anacleto afirmou que o encerramento não ocorreu por problemas na prestação do serviço.
“Às vezes fica aquela impressão de a empresa não ter prestado serviço por alguma divergência ou alguma coisa que aconteceu, mas não”, declarou.
A Seduc informou que, depois do encerramento do contrato, o atendimento especializado passou a ser realizado pela própria rede estadual, com reforço do Centro de Apoio e Suporte à Inclusão da Educação Especial (Cacies).
As famílias, porém, contestam que a substituição tenha ocorrido de forma suficiente. Elas questionam também a informação de que o Cacies teria ampliado os atendimentos de oito para 60 por dia.
Segundo os relatos apresentados ao TCE-MT, as primeiras avaliações de algumas crianças só ocorreram entre março e abril, enquanto outras ainda não teriam conseguido uma vaga.
Pais relatam regressão após interrupção das terapias
Para as famílias, o principal problema é o impacto provocado pela interrupção das terapias no desenvolvimento das crianças.
Kellen Carvalho da Silva, que representa grupos de famílias atípicas, afirmou que seus dois filhos apresentaram agravamento das crises depois que os atendimentos foram interrompidos.
Segundo ela, antes da interrupção, as crises ocorriam duas ou três vezes por mês. Nos meses seguintes, chegaram a nove episódios por semana em cada um dos filhos.
“Nós não estamos aqui pedindo favor a ninguém. Estamos pedindo que o que já está estabelecido por lei seja cumprido. Nós não estamos pedindo que sejam criadas novas leis”, afirmou.
O pai Alex Barbosa também relatou mudanças no comportamento e na autonomia do filho, de cinco anos, após a interrupção do atendimento.
Segundo ele, o menino recebeu terapias durante dois anos no CAMPI e apresentou avanços importantes nesse período.
“Dentro desse período de dois anos em que foi atendido no CAMPI, ele conseguiu formar a primeira frase. Ele não falava frase nenhuma. Agora ele já regrediu muito. Ele ia ao banheiro sozinho. Hoje ele não consegue mais”, contou.
Alex afirmou ainda que a família aguardou seis meses até ser encaminhada para atendimento no Cacies. Ele também tem uma filha neurodivergente que espera por uma vaga na rede pública.
Falta de profissionais e medicamentos também é relatada
Além da interrupção das terapias, os pais apontaram outros problemas na rede pública, como distância dos locais de atendimento, falta de medicamentos e ausência de professores de apoio pedagógico especializado.
As famílias também questionaram o agrupamento de estudantes sem avaliação individualizada sobre o tipo de deficiência e o nível de suporte necessário.
Para Vanessa de Souza Martins Guedes, a inclusão não pode se limitar à matrícula do estudante na escola.
“Um professor regente, numa sala de aula com 30 alunos, não dá conta de dar aula e atender o meu filho com deficiência intelectual. A inclusão não é só aceitar a matrícula do meu filho. A inclusão tem que ser no pedagógico, com equidade”, afirmou.
Outro ponto citado pelas famílias é a paralisação das obras de um novo espaço destinado ao atendimento especializado.
TCE-MT aponta interrupção de tratamentos
Durante a reunião, Sérgio Ricardo apresentou dados de uma auditoria do TCE-MT segundo os quais mais de 90% das famílias ouvidas relataram ter enfrentado interrupção de tratamentos.
Levantamento divulgado pelo Tribunal anteriormente apontou que 90,3% das famílias de crianças autistas ouvidas pela auditoria já haviam enfrentado algum tipo de interrupção, e mais da metade relatou perceber regressão no desenvolvimento durante esses períodos.
O presidente do TCE-MT afirmou que o Tribunal também está cobrando dos municípios informações sobre o número de crianças neurodivergentes e com deficiência atendidas pela rede pública. A intenção é que esses dados passem a integrar o acompanhamento das contas municipais.
“Estamos trabalhando no sentido de termos um divisor de águas e o Tribunal de Contas já entrou de forma maiúscula nessa questão do atendimento às pessoas neurodivergentes e com deficiência”, disse Sérgio Ricardo.
CAMPI também enfrenta problema com a Prefeitura de Várzea Grande
Além da interrupção do contrato com a Seduc, o CAMPI passou por outro período de suspensão de atendimentos neste mês, desta vez envolvendo alunos da rede municipal de Várzea Grande.
O serviço chegou a ser interrompido por causa de atrasos nos repasses da Prefeitura. O atendimento foi retomado após um acordo para pagamento da primeira de oito parcelas em atraso e definição de um cronograma para quitar as demais. A situação também está sendo acompanhada pelo TCE-MT.
O episódio expôs uma segunda dificuldade para as famílias atendidas pelo centro: a dependência de contratos e repasses públicos para garantir a continuidade das terapias.
Presidente do TCE promete acompanhar situação
Para Sérgio Ricardo, a questão precisa ser tratada como política pública permanente, e não apenas como uma resposta pontual às reclamações das famílias.
O atendimento às pessoas neurodivergentes e com deficiência também está entre os temas que o presidente pretende incluir no Plano de Metas Mato Grosso 2050. Entre as propostas está a criação de uma equipe formada por pais e mães atípicos dentro da Secretaria de Estado de Saúde (SES).
Ao final da reunião, representantes das famílias entregaram ao presidente do TCE-MT um colar com o símbolo do autismo.
“Estou dentro até o pescoço, de corpo e alma. Vocês terão sempre em mim uma voz”, afirmou Sérgio Ricardo.
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