A Assembleia Legislativa de Mato Grosso instalou nesta quinta-feira (22) a Câmara Setorial Temática (CST) de Atenção à Obesidade. O grupo vai discutir medidas para ampliar a prevenção, o tratamento e o acompanhamento de pacientes, com atenção especial às dificuldades de acesso às cirurgias reparadoras após a bariátrica.
A iniciativa foi proposta pelo deputado estadual Eduardo Botelho, a pedido da Associação Mato-grossense de Obesidade (AMO). Criada pelo Requerimento nº 532/2026 e constituída pelo Ato nº 0752/2026, a Câmara terá prazo inicial de 180 dias de trabalho, com possibilidade de prorrogação por igual período.
Durante esse período, os integrantes deverão avaliar os serviços disponíveis na rede pública de saúde, identificar os principais obstáculos enfrentados pelos pacientes e elaborar propostas para melhorar o atendimento e a qualidade de vida das pessoas com obesidade.
Cirurgias reparadoras preocupam pacientes
Um dos principais temas discutidos na instalação foi a dificuldade para realizar cirurgias reparadoras. Esses procedimentos retiram o excesso de pele que pode permanecer após uma grande perda de peso, especialmente em pessoas submetidas à cirurgia bariátrica.
A presidente da Câmara Setorial e da AMO, Juvelina de Campos Nunes, afirmou que o estado ampliou a oferta de cirurgias bariátricas, mas ainda existem obstáculos para que os pacientes completem o tratamento.
Segundo dados apresentados por Juvelina, o Hospital Metropolitano, em Várzea Grande, realizou cerca de 5 mil cirurgias bariátricas nos dois anos anteriores. O volume reforça a preocupação com a demanda futura por procedimentos reparadores.
Juvelina explicou que o excesso de pele pode afetar a autoestima, os relacionamentos e a convivência social. Para ela, as cirurgias reparadoras precisam ser consideradas parte do tratamento, e não uma questão apenas estética.
A representante da associação também relatou que um levantamento feito por ela em 2023 identificou mais de cinco mil pacientes na fila por cirurgias reparadoras no Hospital Municipal de Cuiabá. Segundo Juvelina, a espera pode causar sofrimento emocional e isolamento social, sobretudo entre mulheres.
A dificuldade de acesso também faz parte da experiência pessoal da presidente da AMO. Depois de chegar aos 165 quilos, ela passou por uma cirurgia bariátrica em 2004 e perdeu peso. Para realizar parte dos procedimentos reparadores, porém, precisou recorrer à rede privada e à Justiça.
Ao defender a ampliação do atendimento, Juvelina destacou a necessidade de políticas públicas que contemplem pessoas sem condições financeiras de custear as cirurgias. A proposta é levar aos representantes do poder público as dificuldades enfrentadas pelos pacientes e buscar alternativas para reduzir a espera.
Prevenção e acompanhamento contínuo
O trabalho da Câmara também deverá incluir medidas de prevenção da obesidade desde a infância, incentivo à alimentação saudável e ampliação das opções de tratamento. Entre os temas previstos estão o acompanhamento médico e o uso de medicamentos quando houver indicação profissional.
O médico Hélio Marcelo Pesenti Sandrin, especialista em Cardiologia e Clínica Médica, ressaltou que a obesidade é uma doença crônica que exige cuidados contínuos. A condição pode contribuir para o desenvolvimento de diabetes, hipertensão e doenças cardiovasculares.
Na avaliação do médico, o tratamento não deve ficar limitado a cirurgias ou medicamentos para perda de peso. O diagnóstico precoce, o acompanhamento por profissionais de saúde e as ações educativas também são importantes para controlar a doença.
Sandrin alertou que os medicamentos podem ajudar, mas não substituem o cuidado integral. A prevenção e o acompanhamento adequado devem fazer parte das estratégias de saúde pública.
Preconceito também entra na discussão
A procuradora aposentada do município de Cuiabá, Sônia Cristina Mangoni de Oliveira Lelis, integrante da Câmara, chamou a atenção para a discriminação contra pessoas com obesidade. Segundo ela, a pressão por padrões estéticos pode prejudicar a saúde emocional e afastar pacientes de atividades sociais.
Sônia defendeu medidas que assegurem os direitos dessa população e facilitem o acesso aos serviços de saúde necessários. O debate inclui, portanto, tanto as necessidades clínicas quanto os efeitos sociais e emocionais associados à doença.
Também participam dos trabalhos o médico Gunther Peres Pimenta, integrante do Colégio Brasileiro de Cirurgiões e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, e o delegado Bruno Lima Barcellos, relator da CST. Ambos participaram da reunião por videoconferência e colocaram suas experiências profissionais à disposição do grupo.
Quem integra a Câmara Setorial
A Câmara Setorial Temática de Atenção à Obesidade tem Juvelina de Campos Nunes na presidência, Bruno Lima Barcellos na relatoria e Silvana Aparecida Gadani de Arruda, vice-presidente da AMO, na secretaria.
O grupo também conta com os médicos Gunther Peres Pimenta, Regis Vilela Leal, Tarsis Miyabara, Ismael Carvalho, Hélio Marcelo Pesenti Sandrin e Marcus Antônio Godoy, além de Sônia Cristina Mangoni de Oliveira Lelis e do jornalista e radialista Antero Paes de Barros Neto.
Ao final dos trabalhos, a expectativa é que as discussões resultem em propostas para aprimorar a prevenção, ampliar o acesso ao tratamento da obesidade e enfrentar as dificuldades relacionadas às cirurgias reparadoras na rede pública de saúde.
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