A disputa pelo futuro da Volkswagen chega a uma etapa decisiva, com diferentes grupos internos defendendo caminhos opostos para recuperar a rentabilidade da maior fabricante europeia.
O CEO Oliver Blume pretende obter em 4 de setembro a aprovação do conselho de supervisão para uma ampla reestruturação composta por 40 medidas.
Caso encontre nova rejeição, a administração pode levar a estratégia diretamente aos acionistas por meio de uma assembleia extraordinária já em outubro.
A Volkswagen enfrenta tarifas dos Estados Unidos, queda das vendas na China, excesso de capacidade produtiva na Alemanha e pressão crescente de concorrentes asiáticos na Europa.
O cenário afeta um grupo que também controla Audi, Porsche, Bentley e Skoda, tornando a recuperação das margens uma prioridade central para Blume.

Segundo o executivo, a rentabilidade atual não permite financiar adequadamente os negócios futuros, razão pela qual sua meta é elevar a margem para 9%.
A distância ainda é considerável, já que a margem do Volkswagen Group ficou em 4,2% durante o segundo trimestre, menos da metade do objetivo estabelecido.
Administração, sindicatos e governo da Baixa Saxônia elaboraram propostas próprias para a recuperação, refletindo divergências importantes sobre empregos, unidades industriais e estrutura corporativa.
A gestão quer ampliar de 50.000 para 100.000 a redução de postos anteriormente acertada com sindicatos, além de considerar encerramentos de fábricas e separação de divisões.
Representantes dos funcionários e a Baixa Saxônia reagiram apresentando alternativas que, de maneira geral, rejeitam cortes de pessoal e fechamentos de unidades produtivas.
As fábricas de Emden, Zwickau e Hanover, além da unidade da Audi em Neckarsulm, são vistas como vulneráveis por não terem planejamento definido após 2030.
O impasse ganha força por causa da estrutura incomum do conselho de supervisão, que distribui poder de forma diferente da participação dos acionistas na companhia.
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Entre os 20 integrantes do conselho, representantes dos trabalhadores e da Baixa Saxônia controlam juntos 12 cadeiras, quantidade suficiente para impedir uma reestruturação.
Os integrantes também possuem responsabilidade pessoal por decisões tomadas sem considerar os interesses da empresa, elemento que adiciona complexidade às discussões sobre o plano.
A distribuição muda entre os acionistas, pois os trabalhadores não votam e a Baixa Saxônia controla 20% dos direitos de voto da Volkswagen.
A Porsche SE, veículo de investimento das famílias Porsche e Piech, possui 53,3%, enquanto o Qatar detém 17% e os demais acionistas somam 9,7%.
Essa composição poderia aproximar a administração dos 75% normalmente exigidos para grandes mudanças estruturais em companhias alemãs listadas, caso o assunto chegue aos investidores.
Existe, porém, uma barreira adicional na chamada Lei Volkswagen, segundo a qual determinadas operações corporativas, incluindo separações de negócios, normalmente exigem aprovação superior a 80%.
Esse limite concede à Baixa Saxônia capacidade efetiva de bloquear certas propostas, embora a administração possa tentar recorrer ao Artigo 111 da Lei das Sociedades Anônimas alemã.
O dispositivo estabelece que uma assembleia extraordinária convocada pela administração contra a posição do conselho pode aprovar resoluções com três quartos dos votos efetivamente registrados.
A legislação também determina que estatutos empresariais não podem estabelecer exigências superiores nesse caso, abrindo espaço para uma disputa judicial prolongada entre os diferentes grupos.
Outra possibilidade seria solicitar votações separadas sobre futuras divisões dos negócios de automóveis de passageiros e componentes, propostas mais expostas às exigências da Lei Volkswagen.
Antes da votação principal, o comitê executivo do conselho se reúne em 3 de setembro para avaliar se ainda existe espaço para uma solução negociada.
Participam desse grupo Daniela Cavallo, chefe do conselho de trabalhadores da Volkswagen, Olaf Lies, primeiro-ministro da Baixa Saxônia, e integrantes das famílias Porsche e Piech.
Um eventual acordo deve concentrar-se principalmente na quantidade de postos reduzidos e no futuro das fábricas, embora duas fontes indiquem que o cenário industrial dificulta a aproximação.
