Mulher de líder da Igreja de Sião relata bastidores de prisão e revela como a repressão do regime comunista fortaleceu a união entre cristãos no país
A permanência de oito líderes da Igreja de Sião na prisão, decorrente de uma operação coordenada contra templos domésticos não registrados na China, tem gerado um movimento inesperado de fortalecimento espiritual e unidade entre os fiéis locais. De seu exílio na Tailândia, Geng Pengpeng, esposa do pastor detido Gao Yingjia, detalhou a realidade das prisões ocorridas em outubro de 2025 e manifestou otimismo quanto ao impacto religioso da perseguição, conforme relatado ao The Christian Post.
O impacto da repressão estatal
A investida do Partido Comunista Chinês contra a Igreja de Sião é apontada por observadores como a maior ação coordenada contra uma igreja doméstica urbana no país em mais de 40 anos. A organização, que possui uma rede de milhares de membros espalhados por todo o território chinês, atraiu a atenção da comunidade internacional quando a detenção de seu pastor fundador, Jin Mingri, desencadeou um incidente diplomático com os Estados Unidos. Devido ao fato de familiares de Jin possuírem cidadania americana, o líder foi libertado e enviado aos Estados Unidos em 4 de julho, em uma iniciativa de boa vontade do presidente chinês Xi Jinping após a intervenção direta do então presidente Donald Trump.
Apesar dessa liberação, outros oito líderes permanecem encarcerados, incluindo Gao Yingjia. Para a família do religioso, o sofrimento imposto pelas autoridades tem servido para fortalecer a convicção doutrinária do grupo.
A noite da prisão e a fuga
Os momentos que antecederam a prisão foram marcados por tensão e tentativas de escapar do cerco policial. Em 10 de outubro de 2025, Gao tomou conhecimento de que o governo chinês havia iniciado medidas de fiscalização em larga escala, muito superiores ao que os líderes inicialmente supunham. Diante do cerco à residência do pastor Jin e do desaparecimento de outro clérigo, a família decidiu buscar refúgio na casa de amigos nos arredores de Pequim, priorizando a segurança do filho de cinco anos.
Durante a fuga noturna sob chuva, Geng guardou os pertences essenciais, incluindo a Bíblia da criança. Mais tarde, ela descobriu que as forças policiais invadiram sua residência vazia após a partida. A suspeita é de que as autoridades rastrearam a localização da família em tempo real por meio dos sinais de seus aparelhos celulares.
A abordagem policial ocorreu por volta das 2h da madrugada do dia 11 de outubro. Após uma batida ruidosa na porta do esconderijo, agentes à paisana se identificaram e deram voz de prisão ao pastor, que se mostrava sereno diante da situação. Geng recorda que a última interação com o marido foi breve e sem oportunidade de despedida física.
“Se Deus permite que isso aconteça, deve ser uma bênção.”
Atuação religiosa no ambiente prisional
Os líderes detidos foram encaminhados a um centro de detenção na província de Guangxi, no sul da China. Nos primeiros meses, o grupo enfrentou vigilância severa e proibição de estabelecer contato com outros presos, que também foram ameaçados para não interagir com os religiosos. Contudo, relatos de advogados e doze cartas manuscritas enviadas por Gao indicam que a postura resiliente e pacífica dos pastores transformou o ambiente carcerário.
A conduta dos detidos chamou a atenção dos demais prisioneiros que compartilhavam o espaço sob condições adversas. Com o relaxamento gradual das restrições após três meses, os líderes religiosos passaram a realizar atividades de evangelização dentro da própria prisão.
“As pessoas lá dentro estavam sem esperança, tão desesperadas, mas viram meu marido e as outras pessoas, como pareciam tão pacíficas. Então as pessoas ficaram realmente curiosas e perguntaram: ‘Por que vocês não parecem estar em uma prisão?’ Assim, eles têm dado um testemunho muito bom. Depois de três meses, acho que ganharam mais liberdade. Eles podem compartilhar o Evangelho com as pessoas e ter mais conversas.”
A produção escrita de Gao durante o período de cárcere inclui sermões e poesias, que chegam à sua família por vias legais e servem como fonte de consolo espiritual.
“Através de suas cartas e das cartas dos advogados, ele escreveu muitos sermões e poemas na prisão. Então, cada vez que os lia, chorava e também me sentia encorajada. Sei que Deus está realmente trabalhando através da provação. Ele está transformando a maldição em bênção.”
Adaptação familiar e união comunitária
Enquanto o marido cumpre a detenção, Geng lida com a criação do filho na Tailândia. Inicialmente traumatizada pelas circunstâncias e por pesadelos de perseguição, a criança encontrou compreensão sobre a situação do pai após a leitura conjunta das passagens bíblicas sobre a prisão do apóstolo Paulo descritas no livro de Atos. O menino passou a encarar a detenção do pai como uma missão ativa e começou a pregar para colegas de classe em sua nova escola.
A perseguição também provocou uma reação de solidariedade na comunidade cristã chinesa. Reuniões semanais de oração organizadas por plataformas digitais passaram a atrair fiéis de diversas denominações em apoio à Igreja de Sião.
“Acho que vimos igrejas mais unidas do que nunca. Lembro-me de quando aconteceu pela primeira vez, toda terça-feira nossa igreja tinha uma noite de oração pelos perseguidos. Lembro-me de muitas pessoas de outras igrejas, elas se juntaram às nossas reuniões de oração e também no aplicativo de bate-papo online. Muitas pessoas escreviam: ‘Hoje à noite somos a Igreja de Sião. Somos todos a Igreja de Sião. Estamos com todos vocês.’ Então senti que Deus realmente está trabalhando e despertando algo muito maior do que isso.”
Na visão dos membros da igreja doméstica, a atual conjuntura reforça o papel histórico do sofrimento na formação da identidade religiosa na China. Geng avalia que a repercussão global do caso pode ser o prenúncio de um reavivamento espiritual amplo para as congregações locais.
“O DNA das igrejas chinesas tem o sofrimento como uma parte muito importante. Portanto, temos crescido em meio aos sofrimentos. Meu marido está longe. Preciso ser pai e mãe ao mesmo tempo, e houve dificuldades. Mas, espiritualmente, sinto que nunca estivemos tão próximos do Senhor e tão fortes e maduros na fé.”