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Igrejas evangélicas brasileiras enfrentam preconceito na Espanha

Bandeira da Espanha entre as torres de uma igreja (Foto: Folha Gospel/ Canva IA)

A crescente presença de igrejas evangélicas com origem no Brasil na Espanha, impulsionada em grande parte por imigrantes latino-americanos, tem sido acompanhada por um cenário de preconceito e discriminação. Essas congregações, contudo, desempenham um papel fundamental como espaços de apoio e integração para a comunidade estrangeira na capital espanhola, onde a imigração tem crescido significativamente.

Na capital espanhola, o bairro de San Blas, conhecido por seu passado operário, abriga a igreja evangélica pentecostal brasileira Deus é Amor. Em contraste com a tranquilidade das ruas residenciais, a fachada colorida da igreja atrai fiéis de diversas nacionalidades aos domingos. Para muitos imigrantes latino-americanos, o templo representa mais do que um local de adoração, funcionando como um ponto de acolhimento e suporte familiar.

A paraguaia “irmã Clara”, que vive na Espanha desde 2019, descreve o ambiente como um lugar onde “somos todos família”, destacando a preocupação mútua entre os membros.

A expansão das igrejas evangélicas no país não se limita a Madri. O Observatório de Pluralismo Religioso aponta que uma nova igreja evangélica abre a cada quatro dias na capital, totalizando 1.187 templos. Nos últimos cinco anos, 455 novas congregações foram inauguradas, um acréscimo de 62%. Em Barcelona, a presença evangélica praticamente dobrou em duas décadas, segundo dados da Dirección General de Asuntos Religiosos de la Generalitat.

O pastor Gilberto Miranda de Moraes, líder da Igreja Deus é Amor na Espanha e natural do Rio Grande do Sul, conduz cultos que mesclam português e espanhol. As pregações abordam temas como fé, vida conjugal e prosperidade financeira, com momentos de oração por fiéis que enfrentam dificuldades de saúde, financeiras ou crises de fé.

Em âmbito nacional, estima-se que cerca de 1,5 milhão de pessoas sejam fiéis a essas igrejas na Espanha. O percentual de adeptos que se declaram pertencentes a grupos evangélicos saltou de 0,2% em 1998 para 2% em 2018. Igrejas como a Universal do Reino de Deus, Batista da Lagoinha, Mais de Cristo, Comunidade Evangélica Internacional Zona Sul, Cristã Maranata e Verbo da Vida também marcam presença, disputando espaço com congregações de outros países latino-americanos.

O professor Chema Alejos associa essa expansão à forte imigração, especialmente de latino-americanos, que buscam proximidade cultural e um espaço de apoio ao se mudar para um novo país. A Espanha abriga aproximadamente 4 milhões de imigrantes latino-americanos, muitos deles vivendo em situação irregular, o que intensifica debates sobre regularização e deportação.

Sandra, equatoriana residente em Madri desde 2016, relata o senso de comunidade vivenciado na Igreja Adventista do Sétimo Dia, onde os membros se apoiam mutuamente na busca por emprego e moradia. No entanto, o acolhimento encontra barreiras fora dos templos. A pregadora dominicana Josefa Nava, de 78 anos, já foi multada por evangelizar em espaços públicos, algo que, segundo ela, não ocorreria com membros da igreja católica.

Marcelo de Moura, brasileiro e cooperador da Deus é Amor em Madri, narra ter sofrido rejeição de colegas de trabalho após sua conversão, devido a mudanças percebidas em seu comportamento e discurso. O pastor Gilberto Miranda atribui essas experiências a uma persistente ideia de “superioridade europeia” e a uma visão de “terceiro mundo” em relação a imigrantes.

A relação histórica entre protestantismo e a sociedade espanhola, consolidada como reduto católico e com um passado de perseguições a protestantes desde o século XV, agrava as tensões. Durante o franquismo, práticas evangélicas foram proibidas. A liberdade religiosa só foi plenamente restabelecida com a transição democrática.

Kenny Clewett, cofundador da Hello World, organização que apoia migrantes, aponta que a composição dos evangélicos na Espanha inclui grupos historicamente marginalizados, como a comunidade cigana. Ele descreve a sociedade espanhola como racista, o que leva à exclusão e diminuição de grupos não brancos. Essa dinâmica se reflete em estruturas institucionais, onde migrantes e ciganos têm baixa representação em espaços de decisão.

Apesar da curiosidade de alguns espanhóis não evangélicos, a sociedade tende a impor um afastamento, especialmente no que diz respeito à autoridade espiritual exercida por pessoas não brancas.

Com informações de O Globo

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