Reduzir anos de desenvolvimento para poucos meses virou peça central da recuperação da Nissan, que agora reorganiza seus carros em famílias para ganhar velocidade e cortar custos.
A fabricante pretende abandonar a lógica de desenvolver cada modelo quase isoladamente e passar a compartilhar plataformas, conjuntos mecânicos, software e componentes entre diversos veículos relacionados.
Hidemi Sasaki, gerente-geral da divisão de Gestão de Produtos e Programas, afirma que a Nissan Product Family Strategy busca entregar produtos mais atraentes, rapidamente e com melhor valor.
Cada família terá requisitos de desenvolvimento, faixas de metas comerciais e especificações comuns, permitindo que vários projetos avancem sobre uma mesma base técnica previamente definida.
A Nissan calcula que a abordagem poderá reduzir em cerca de 40% o tempo de desenvolvimento individual e cortar em 70% a variedade de componentes utilizados.

A companhia também espera elevar a eficiência dos investimentos e pretende aplicar essa estratégia baseada em famílias a aproximadamente 80% de toda a sua gama.
Um projeto totalmente novo costumava exigir cerca de 50 meses, mas a meta agora é chegar a 37 meses quando houver necessidade de desenvolver uma plataforma inédita.
Modelos derivados de uma arquitetura já existente deverão ser ainda mais rápidos, com cronograma estimado em apenas 30 meses entre o começo do projeto e sua conclusão.
Parte dessa simplificação corrige uma prática antiga da Nissan, que frequentemente criava chassis e componentes específicos demais para cada veículo, multiplicando peças produzidas em pequenos volumes.
Agora, cada projeto poderá selecionar itens dentro de um conjunto limitado de motores, plataformas digitais, bancos, rodas e outros componentes compartilhados entre integrantes da mesma família.

A tomada de decisões também foi reformulada, pois anteriormente três líderes diferentes respondiam por rentabilidade, atratividade do produto e execução, tornando algumas etapas mais demoradas.
Planejamento e rentabilidade passaram a trabalhar conjuntamente, enquanto engenheiros ficam mais concentrados na execução, numa tentativa de tornar a estrutura de desenvolvimento mais enxuta.
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Inteligência artificial e ferramentas digitais também entram nesse processo, especialmente para aumentar a eficiência dos testes realizados durante a criação e validação dos novos veículos.
A referência mais evidente vem da China, onde fabricantes conseguem colocar produtos inéditos no mercado em aproximadamente dois anos graças ao uso intensivo de ferramentas digitais.
A BYD, por exemplo, desenvolveu seu primeiro kei elétrico destinado ao Japão em apenas dois anos e meio, mesmo sem experiência anterior nessa categoria específica.

A própria Nissan já comprovou que consegue trabalhar nesse ritmo ao desenvolver o N7 elétrico com a Dongfeng na China em somente dois anos.
Ivan Espinosa, presidente e CEO da Nissan, afirma que uma parte decisiva do plano é aprender com a China e levar esse conhecimento para outras operações mundiais.
A urgência é explicada pelos números, pois as vendas globais no varejo recuaram 5,8% no ano fiscal encerrado em março, ficando em 3,15 milhões de veículos.
O contraste é forte diante do recorde de 5,77 milhões registrado no ano fiscal encerrado em março de 2018, antes da longa perda de ritmo comercial.
Kazuyuki Yamaguchi, executivo da principal divisão de desenvolvimento de produtos, reconhece que ciclos excessivamente longos deixaram a empresa por períodos prolongados sem novidades relevantes.
No Japão, a Nissan passou quase três anos sem renovar completamente um modelo importante antes da chegada da nova geração do Roox em outubro passado.
A gama envelhecida também pesou na América do Norte, onde a ausência de híbridos coincidiu com crescimento da procura por essa tecnologia após mudanças relacionadas aos EVs.
Sob comando de Espinosa, cuja carreira tem forte ligação com planejamento de produtos, a empresa aposta agora numa sequência acelerada de lançamentos para recuperar competitividade.
Sete modelos estão chegando ao Japão, incluindo o novo Leaf lançado em janeiro, seguido pelo Kicks renovado e pela nova geração da minivan premium Elgrand.
A próxima geração do Skyline está prevista para este inverno, enquanto na América do Norte a Nissan lançou recentemente sua primeira versão híbrida plug-in do Rogue.
Uma configuração híbrida convencional do mesmo SUV deverá chegar mais adiante neste ano, ampliando rapidamente opções numa área em que a fabricante estava atrás de concorrentes.
Yamaguchi acredita que desenvolver carros atraentes em menos tempo também reduzirá custos, permitindo preços mais competitivos e criando um ciclo de crescimento sustentado por lançamentos mais oportunos.
