O talento costuma ser o primeiro aspecto que chama atenção quando surge um jovem piloto. Mas, por trás de cada volta rápida, existe uma história que quase nunca aparece para quem acompanha apenas o resultado das corridas. No caso de Henrique Bezerra, de apenas 12 anos, ela envolve dedicação, renúncias e uma família que decidiu transformar o sonho do filho em um projeto de vida.
Durante as 6 Horas de São Paulo do FIA WEC, Motor1.com e Motorsport.com receberam Henrique e seu pai, Eduardo Bezerra, para um podcast gravado no estúdio montado em Interlagos. Nos bastidores da gravação também estava Sandra Ghercov, mãe do piloto e presença constante em toda a trajetória do filho desde o início da carreira. A conversa acabou revelando muito mais do que os resultados conquistados nas pistas. Mostrou como nasce um piloto e, principalmente, o que existe por trás de quem tenta construir uma carreira no automobilismo brasileiro.
Piloto Henrique Bezerra – Kart | HGB Motor Sport
Foto de: Divulgação
A história começou quase que por acaso. Henrique teve o primeiro contato com a modalidade em 2024, durante a comemoração de seu aniversário de 10 anos. A ideia era apenas reunir os amigos em um kartódromo para celebrar a data, mas a brincadeira rapidamente ganhou outro significado.
Na primeira experiência, Henrique surpreendeu o proprietário do kartódromo ao vencer as duas baterias e abrir uma volta de vantagem sobre o segundo colocado. O desempenho chamou tanta atenção que veio imediatamente o convite para disputar um campeonato. Até aquele momento, ninguém da família imaginava que aquele aniversário marcaria o início de uma nova rotina.

Piloto Henrique Bezerra – Kart | HGB Motor Sport
Foto de: Divulgação
“Era só uma brincadeira”, relembrou Henrique durante o podcast. Foi justamente naquele dia, porém, que ele percebeu que queria continuar competindo.
As vitórias passaram a acontecer com naturalidade. Logo na estreia em competições oficiais, Henrique venceu as baterias da Copa Paulista e continuou acumulando bons resultados nas provas seguintes. O desempenho também chamou a atenção do ex-piloto Marcos Tacuma, que sugeriu um desafio maior para entender se aquele talento era resultado apenas da empolgação inicial ou se realmente havia potencial para seguir no automobilismo.
A resposta veio da melhor maneira possível. Na primeira participação no campeonato organizado por Tacuma, Henrique voltou a vencer.
O curioso é que ninguém da família tinha histórico no esporte. Eduardo nunca competiu e precisou aprender, ao lado do filho, tudo o que envolve uma carreira no kart. Regulamentos, acerto do equipamento, equipes, logística e preparação passaram a fazer parte da rotina da casa.
“Quem é o patrocinador? Quem ajuda na mecânica? Quem faz os vídeos? Quem dirige? Quem faz o roteiro? Acabou que nós transformamos o sonho dele no nosso sonho”, contou Eduardo.
Foi justamente nesse momento que surgiu o maior desafio. Diferentemente de outras modalidades esportivas, o automobilismo exige investimentos constantes desde as categorias de base. Pneus, motores, inscrições, equipamentos, treinos e viagens fazem parte de uma conta que cresce rapidamente.
Para disputar o Campeonato Brasileiro de Kart, a família tomou uma decisão que até então era conhecida apenas por pessoas próximas: vendeu o próprio carro.
A ideia era direcionar os recursos para a temporada de Henrique. Sem poder ficar sem veículo para trabalhar, Eduardo e Sandra passaram a utilizar carros alugados enquanto mantinham vivo o projeto do filho.
“Vendemos o nosso carro para que o sonho dele fosse concretizado”, revelou Eduardo durante a conversa
Os desafios, no entanto, não ficaram restritos ao aspecto financeiro. Durante sua trajetória nas pistas, Henrique sofreu uma fratura no punho que o afastou das competições por 45 dias. O período longe do kart poderia interromper o bom momento vivido pelo jovem piloto, mas aconteceu justamente o contrário. Recuperado, voltou vencendo as etapas seguintes e confirmou o título paulista, reforçando uma característica que a família faz questão de destacar: a capacidade de transformar dificuldades em evolução.
Outra demonstração dessa maturidade aconteceu no Campeonato Brasileiro de Kart, disputado no Kartódromo Beto Carrero. Sem nunca ter treinado no circuito, Henrique iniciou os trabalhos apenas com o 37º melhor tempo. Poucas sessões depois, já aparecia entre os dez mais rápidos. Na classificação, acabou desclassificado após avisar aos comissários que o bico do kart havia destravado, sem saber que aquele procedimento feria o regulamento.
Longe de abalar a confiança da família, o episódio foi encarado como mais um aprendizado em uma carreira que ainda está apenas começando.
Dentro do kart, Henrique demonstra uma tranquilidade incomum para a idade. Ao ser perguntado sobre o que passa pela cabeça durante uma corrida, respondeu que procura não pensar nos adversários.
“Eu penso como se eu e o kart fôssemos uma coisa só”, explicou o jovem piloto
Fora das pistas, a paixão continua. Boa parte do tempo livre é dedicada aos simuladores, especialmente Assetto Corsa e Automobilista 2, que ajudaram a desenvolver sua percepção de pilotagem antes mesmo das primeiras competições.

Piloto Henrique Bezerra – Kart | HGB Motor Sport
Foto de: Divulgação
Questionado sobre quem o inspira no automobilismo, Henrique não hesitou ao citar Ayrton Senna. E, quando perguntado sobre o futuro, também respondeu com convicção. Seu objetivo não é simplesmente chegar ao automobilismo profissional, mas disputar a GT World Challenge, uma das principais categorias de carros GT do mundo.
O caminho ainda será longo. Como acontece com praticamente todos os pilotos brasileiros em formação, o talento precisa caminhar ao lado de oportunidades e patrocinadores para que a evolução nas pistas continue acontecendo. Se depender da determinação demonstrada por Henrique e do apoio incondicional de Eduardo e Sandra, porém, o projeto familiar iniciado em uma festa de aniversário tem todos os ingredientes para continuar escrevendo novos capítulos.
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– Equipe do Motor1.com