• Home
  • Automobilismo
  • Há quase 50 anos, mecânico francês dirige o mesmo Renault 8 S amarelo comprado do irmão e jura que o sedã morre com ele

Há quase 50 anos, mecânico francês dirige o mesmo Renault 8 S amarelo comprado do irmão e jura que o sedã morre com ele

O Renault 8 S amarelo de Paul Nicoules em Cunac, perto de Albi, companheiro de quase 50 anos de estrada no Tarn.

No interior do sudoeste francês, um sedã amarelo de linhas retas e motor na traseira ainda sai da garagem como se o calendário não tivesse avançado meio século, carregando o mesmo dono que o comprou do irmão quando o carro já não era novidade de showroom.

Em Cunac, comuna pequena colada a Albi, no departamento do Tarn, Paul Nicoules trata o Renault 8 S não como relíquia de colecionador enclausurado, mas como companheira de estrada que atravessou primeiros empregos, mudanças de região e a chegada dos filhos, e que ele resume com uma frase seca de quem não negocia afeto: a carroceria amarela vai morrer com ele.

Quem passa pelas ruas estreitas desse pedaço rural da Occitânia, a cerca de setenta quilômetros a nordeste de Toulouse, encontra no pátio de Paul mais do que um clássico francês bem cuidado.

A mesma garagem que abriga uma Citroën Rosalie, uma 2CV e um conversível inglês também guarda o Renault 8 S que, nos anos em que circulou novo, ganhou o apelido irônico de “Gordini do pobre” por oferecer um ar esportivo acessível a quem não podia pagar as versões de competição da marca.

renault 8 s
PxHere

O sedã de 55 cavalos que virou biografia sobre rodas

A história começa em 1978, quando Paul adquire o carro do próprio irmão por 1.700 francos, quantia que hoje equivaleria a pouco mais de 1.000 euros (cerca de R$ 6,1 mil), valor modesto até para a época e ainda mais simbólico quando se mede o que o veículo carregou depois.

Saído no fim dos anos 1960, o Renault 8 S reunia cerca de 55 cavalos, algo perto de 800 quilos e velocidade máxima na casa dos 145 km/h, números que hoje soam tímidos, mas que bastavam para transformar o compacto em ferramenta de liberdade numa França em que o automóvel popular deixava de ser luxo e virava extensão do trabalho e da família.

Adicionar como fonte preferida no Google

Últimas notícias

Com a pequena amarela, o jovem Paul tomou a estrada do primeiro emprego nas forjas de Niaux, do lado de Tarascon, na Ariège, subiu depois com o carro para o Aveyron e acabou se fixando no Tarn, onde permaneceu trinta e quatro anos como mecânico.

O hodômetro, que zera a cada 100 mil quilômetros, já deu “talvez uma ou duas” voltas completas, o que basta para imaginar a quilometragem real de uma vida compartilhada com o mesmo volante, o mesmo ronco traseiro e a mesma carroceria que nunca foi trocada por um modelo mais moderno. Naquele tempo, conta ele, comprar um carro era acontecimento de vizinhança: todo mundo ia ver a máquina nova.

Entrar hoje no habitáculo estreito do Renault 8 S é voltar a um interior sem direção hidráulica, com o passageiro de roda avançando os pés quase para o meio do assoalho e um câmbio que exige pulso e memória muscular.

Para Paul, porém, “tudo é simples com esse carro”, desde que se conheça o temperamento da máquina — e ele avisa que, na estrada, é preciso saber manobrá-la porque falta peso na dianteira, detalhe típico dos projetos com motor atrás que dão ao sedã um caráter próximo ao de um carro de rali de estrada de terra.

Renault 8 S
© Wikimedia Commons

Do primeiro emprego às mãos que nunca entregaram a chave

Formado na oficina, Paul jamais confiou a manutenção do Renault 8 S a outras mãos. Debaixo do capô traseiro ele guarda chaves, parafusos e uma bobina enrolada num pano, prontos para um imprevisto na beira da estrada, porque o motor é “muito básico como os de antigamente”, sem eletrônica, e permite que se faça quase tudo com pouca ferramenta.

Essa simplicidade, hoje rara em qualquer concessionária, é exatamente o que sustenta a fidelidade de quase cinquenta anos: o dono sabe que pode se virar sozinho, longe de scanners e módulos que trancam o diagnóstico. Há alguns anos, quando o carro ainda andava mas pedia intervenção séria, ele decidiu restaurá-lo sem transformá-lo em peça de museu intocável.

Enquete

Com o Renault 8 S ainda rodando, qual efeito prático se destaca?

Vote e veja o resultado em tempo real.




0 votos

Num dia de feira de rua, avisou à filha que no dia seguinte começariam a obra e que, no ano seguinte, o amarelo precisava estar de volta ao mesmo tipo de evento. Desmontou tudo, remonta o motor, mandou refazer peças no espírito da época e só terceirizou a pintura da carroceria em cabine, mantendo o tom amarelo original e a placa de sempre.

O objetivo nunca foi engarrafar o sedã sob capa de lona: mesmo que rode só mil quilômetros no ano, o importante, insiste, é usá-lo. A recusa em vender atravessa qualquer conversa sobre dinheiro. Paul afirma, sem rodeios, que podem oferecer o valor que quiserem e ainda assim não levarão o carro — frase que ecoa o apego de quem viu o volante acompanhar namoros, mudanças de cidade e a rotina de oficina.

Os filhos já compartilham esse vínculo e prometem manter a pequena amarela viva nas estradas do Tarn, o que transforma o Renault 8 S em patrimônio familiar mais do que em ativo negociável de classificados de clássicos.

Por que um Renault 8 ainda faz sentido nas estradas do Tarn

Lançado em 1962 como sucessor do Dauphine, o Renault 8 marcou a motorização de massa na França do pós-guerra com a fórmula de motor traseiro, tração atrás e robustez simples que permitia ao dono mexer no próprio carro.

A versão S reforçava o acabamento e o apelo um pouco mais vivaz dentro da linha, sem abandonar o espírito popular que, na prática, cumpria na França um papel parecido ao que o Fusca e, depois, o Chevette cumpriram em garagens brasileiras: transporte diário confiável, barato de manter e cheio de personalidade. Manter o mesmo exemplar por quase meio século exige mais do que nostalgia.

Peças envelhecem, a ferrugem ataca, a documentação precisa acompanhar as regras e a mecânica pede atenção constante — sobretudo quando o carro não fica engarrafado como troféu, e sim roda de verdade entre vilarejos e cidades médias do interior.

Em regiões como a de Albi, conhecida pelo centro histórico e pela catedral de tijolos, comunidades pequenas como Cunac concentram moradores de longa data para quem o automóvel é testemunha de gerações, não acessório trocado a cada ciclo de financiamento.

O contraste com o presente é óbvio e, por isso mesmo, cativante: enquanto a indústria empurra eletrônica embarcada, assistência à condução e ciclos cada vez mais curtos de renovação, Paul segue com um sedã em que se troca bobina com a mão e se escuta o motor roncar a cada acelerada.

A reportagem reunida pelo autojournal.fr flagra exatamente esse tipo de fidelidade rara, tingida de mecânica de bancada, cheiro de França rural dos anos 1970 e a convicção de que um carro pode ser biografia sobre quatro rodas.

A pequena amarela que recusa o destino de museu

Não se trata de um recorde homologado nem do “último” Renault 8 da França, e sim de um caso concreto de longevidade afetiva e técnica que ainda cabe no cotidiano.

O carro foi restaurado para continuar andando, não para brilhar sob holofotes de concurso de elegância; a pintura voltou amarela, a placa original ficou, as ferramentas seguem no compartimento traseiro e o dono sexagenário assume o prazer de colocar o sedã na estrada mesmo que o ano rinda poucos quilômetros.

Em tempos de carros que pedem software para abrir o capô, a imagem de um mecânico que desmonta o próprio motor, refaz peças no espírito da fábrica e devolve o amarelo à feira de rua no ano seguinte funciona como contraponto silencioso.

O Renault 8 S de Paul Nicoules não promete tecnologia de ponta nem consumo de híbrido; promete continuidade, memória familiar e a teimosia boa de quem escolheu uma máquina e decidiu envelhecer com ela nas curvas do Tarn, entre Albi e o interior que ainda reconhece o ronco de um motor traseiro antigo.

Enquanto os filhos se preparam para herdar não só a chave, mas o compromisso de manter a pequena amarela rodando, o sedã segue cumprindo o papel que teve desde 1978: sair da garagem, enfrentar a estrada estreita e lembrar que, para algumas pessoas, o valor de um carro se mede em décadas compartilhadas, não na tabela de usados do mês.

Em Cunac, perto de Albi, o Renault 8 S amarelo continua sendo menos objeto e mais personagem — e Paul Nicoules, ao volante sem direção assistida, parece determinado a escrever com ele o último capítulo da mesma história.

Clique aqui para acessar a Fonte da Notícia

VEJA MAIS

Fux vai relatar ação sobre idas da esposa de Moraes ao Senado

O ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), foi sorteado nesta terça-feira (22) para…

Raphinha vive fase histórica e ganha protagonismo na Seleção

Raphinha se apresentou à Seleção Brasileira em Brisbane, na Austrália, como um dos principais nomes…

Documentos mostram que Lagoinha Global exigia prestação detalhada das finanças das igrejas locais

André Valadão (Foto: Reprodução/Redes Sociais) Informações obtidas pelo Metrópoles contrastam com declarações de André Valadão…