A transição para EVs e veículos definidos por software ainda não consegue criar vagas na mesma velocidade em que a indústria automotiva europeia reduz seus quadros tradicionais.
Fornecedores europeus anunciaram 104.000 cortes de vagas entre 2024 e 2025, sendo 50.000 apenas no ano passado, segundo a associação setorial CLEPA.
O contraste aparece nas contratações, já que somente 7.000 novas posições foram criadas pelos fornecedores em 2025 dentro de um setor com 1,7 milhão de trabalhadores na União Europeia.
A CLEPA estima que competição chinesa, pressão sobre preços e desafios regulatórios podem colocar 350.000 vagas de fornecedores em risco até 2030.
A Renault anunciou em junho a redução de 800 posições de engenharia na França até o fim de 2027 para enfrentar fabricantes chinesas com custos menores.

Essa medida integra um plano mais amplo que prevê diminuir entre 15% e 20% o quadro global de engenharia da fabricante francesa.
O centro dessa retração, porém, está na Alemanha, onde o setor automotivo perdeu 42.300 trabalhadores, ou 5,8%, nos 12 meses encerrados em junho.
O país ficou com 691.500 empregados na indústria automotiva, menor número desde 2005, segundo dados do Escritório Federal de Estatísticas alemão.
Nas fabricantes, o emprego caiu 6,1%, enquanto empresas de peças e acessórios registraram redução ainda maior, de 7,6%, durante o mesmo período.
O Volkswagen Group aprovou em 3 de setembro mais 50.000 cortes, depois de já ter definido outra redução de 50.000 posições anteriormente.
A companhia afirma possuir capacidade excedente equivalente a 500.000 veículos em suas fábricas alemãs, reforçando a necessidade de adequar produção e estrutura.
A Porsche também ampliou seu plano de redução na Alemanha em julho, acrescentando 5.000 vagas a um programa que agora alcança 8.900 posições.
O total inclui 3.900 cortes já anunciados, com ajustes realizados por desligamentos naturais, aposentadorias antecipadas e programas voluntários, mantendo garantias de emprego até 2035.
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A Porsche possui cerca de 23.000 trabalhadores na Alemanha, enquanto a BMW pretende eliminar até 8.000 posições no país até o fim de 2027.
A Volvo anunciou no ano passado a redução de 3.000 vagas, aproximadamente 15% de seu quadro administrativo global, diante do aumento das pressões financeiras.
A Jaguar Land Rover planeja retirar 4.000 posições, equivalentes a 9% de sua força de trabalho, principalmente no Reino Unido, diante de tarifas norte-americanas e receita menor.
Benjamin Krieger, secretário-geral da CLEPA, afirma que a velocidade atual das reduções já supera projeções anteriores feitas para os efeitos da eletrificação sobre o emprego.
Ao mesmo tempo, fornecedores encontram dificuldade para contratar engenheiros e especialistas em software necessários ao desenvolvimento de tecnologias elétricas, digitais e de veículos definidos por software.
Segundo Krieger, essa escassez de profissionais qualificados não será suficiente para compensar a diminuição de vagas em atividades industriais que dependem de mais mão de obra.
A CLEPA calcula que a produção de veículos na União Europeia permaneceu em 2025 cerca de 20% abaixo de 2019, diferença aproximada de 3,1 milhões de unidades.
Como a produção deve permanecer praticamente estável a partir de 2026, fornecedores enfrentam maior pressão para fechar unidades, transferir atividades ou ajustar seus quadros.
Manuel Kallweit, responsável por inteligência econômica e economia na associação alemã VDA, classifica a situação do emprego no país como preocupante.
Segundo ele, as fábricas alemãs produzem aproximadamente o mesmo volume de um ano atrás, mas utilizando cerca de 6% menos trabalhadores.
Kallweit aponta que custos de energia elevados e produtividade insuficiente enfraqueceram a vantagem que anteriormente permitia à Alemanha sustentar uma estrutura industrial mais cara.
A VDA defende maior flexibilidade nas regras europeias de CO2, argumentando que instalações ligadas a motores tradicionais e híbridos plug-in não podem simplesmente migrar para baterias.
Segundo Kallweit, uma abordagem aberta a diferentes tecnologias poderia preservar 50.000 vagas somente na Alemanha durante a transformação da indústria.
A VDA projeta ainda a perda adicional de 125.000 empregos automotivos alemães até 2035 caso o atual ambiente regulatório seja mantido.
Somadas às aproximadamente 100.000 posições eliminadas desde 2019, essas reduções deixariam o setor com 225.000 empregos a menos do que antes da pandemia.
Sigrid de Vries, diretora-geral da ACEA, ressalta que o ecossistema automotivo europeu sustenta mais de 13 milhões de empregos em diferentes áreas.
Desde 2015, a cadeia automotiva investiu cerca de € 250 bilhões (R$ 1,495 trilhão) em eletrificação e tecnologias relacionadas.
Fabricantes e fornecedores sediados na União Europeia também investiram quase € 450 bilhões (R$ 2,691 trilhões) em pesquisa e desenvolvimento entre 2019 e 2024.
De Vries alerta que novas vagas em baterias, software e recarga podem surgir longe das regiões onde empregos industriais tradicionais estão desaparecendo.
Para a ACEA, reduzir custos de energia, simplificar regras, acelerar licenças e fortalecer cadeias de baterias e matérias-primas será decisivo para manter investimentos na Europa.
Sem melhora estrutural de competitividade, novos projetos, capacidade produtiva e empregos associados a eles poderão migrar cada vez mais para mercados fora do continente.
