A estratégia chinesa de transformar a Hungria em base industrial europeia começa a enfrentar obstáculos maiores, com BYD, CATL e outras empresas submetidas a novas revisões e exigências.
O governo do primeiro-ministro Peter Magyar, que assumiu o cargo em maio, colocou a reconstrução das relações com a União Europeia entre suas principais prioridades.
A mudança contrasta com a aproximação promovida pelo ex-primeiro-ministro Viktor Orban, cuja administração buscou intensamente investimentos chineses para estimular o crescimento econômico do país.
Magyar prometeu elevar padrões ambientais e trabalhistas, além de aumentar a transparência dos subsídios públicos e reavaliar individualmente acordos de investimento assinados anteriormente.
Entre as empresas citadas está a BYD, que estabeleceu sua sede europeia na Hungria e pretende iniciar neste ano as operações de sua fábrica de EVs em Szeged.
Autoridades do Ministério das Relações Exteriores revelaram no fim de julho que o governo anterior havia prometido à BYD subsídios substanciais e aceitado cerca de 10.000 trabalhadores chineses.
A construção da unidade também recebeu questionamentos sobre práticas trabalhistas, incluindo jornadas excessivas e horas extras sem pagamento relatadas pela organização China Labor Watch, de Nova York.
Segundo a entidade, alguns trabalhadores chineses entrevistados disseram cumprir jornadas de até 14 horas diárias durante sete dias por semana nas atividades ligadas à obra.
Outra questão surgiu em julho, quando o ex-ministro das Relações Exteriores Peter Szijjarto deixou o Parlamento e assumiu uma função executiva na própria BYD.
Szijjarto, aliado próximo de Orban, havia negociado os termos do investimento da fabricante na Hungria e poderá enfrentar uma apuração governamental sobre possível conflito de interesses.
As novas regras ambientais podem causar efeitos ainda maiores, especialmente para fabricantes de baterias instalados em regiões que receberam grandes volumes de capital chinês.
David Vitezy, ministro dos Transportes e Investimentos, afirmou em agosto que procedimentos facilitados de licenciamento deixarão de valer para unidades de baterias que descumprirem normas ambientais.
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Autoridades retiraram em junho a licença operacional da Semcorp em Debrecen depois que amostras subterrâneas apresentaram concentrações de alumínio muito acima dos limites legais.
A CATL também enfrenta crescente resistência local após questionamentos ambientais em sua nova unidade, recebendo em agosto uma multa relacionada ao armazenamento de resíduos perigosos e outras normas.
O governo pretende criar ainda neste mês uma nova agência para fiscalizar fábricas de baterias, com autoridade para realizar inspeções presenciais e determinar paralisações de produção.
Laszlo Gajdos, ministro do Meio Ambiente, afirmou que instalações incapazes de cumprir as exigências estabelecidas poderão ter suas atividades encerradas pelas autoridades.
Magyar conquistou apoio relevante de grupos ambientais no leste húngaro, onde criticou a estratégia industrial de Orban durante a campanha parlamentar de abril.
Sua vitória foi especialmente expressiva em cidades como Debrecen, antigo reduto de Orban, enquanto a proteção ambiental apareceu como uma das principais promessas eleitorais.
Durante encontro em Budapeste com o presidente chinês Xi Jinping, em 2024, o governo Orban havia acertado ampliar investimentos ligados ao setor de EVs.
Críticos afirmam que empresas chinesas receberam acordos pouco transparentes de subsídios e tratamento regulatório favorável, especialmente em questões ambientais, durante a administração anterior.
A União Europeia também adicionou tarifas aos EVs fabricados na China em 2024, alegando preços artificialmente baixos e riscos à competitividade da indústria automotiva europeia.
Nesse cenário, fabricantes chinesas que escolheram a Hungria como plataforma de produção dentro do bloco precisam agora adaptar projetos, custos e operações às novas condições.
Apesar da revisão dessa aproximação, poucos analistas esperam uma ruptura ampla com Pequim, já que a China continua relevante para investimentos e cadeias produtivas húngaras.
A economista húngara Bernadett Szel avalia que a China permanecerá uma parceira importante, porém deixará de ocupar posição privilegiada diante de limites políticos e regulatórios mais claros.
Segundo Szel, a prioridade do Partido Tisza em reconectar a Hungria às redes econômicas ocidentais aponta para maior diversificação no Indo-Pacífico e menor dependência unilateral da China.
