China convoca milhões de carros por risco de portas travadas

A China acaba de anunciar um dos maiores recalls automotivos de sua história. A Tesla e outras oito fabricantes estão convocando cerca de 4,3 milhões de veículos por problemas que podem dificultar a abertura das portas em situações de emergência. No centro da questão está uma solução de design que se popularizou nos carros elétricos: as maçanetas retráteis.

A preocupação não está no uso do dia a dia, mas no que pode acontecer depois de uma colisão grave. Muitos dos modelos afetados pelo recall têm maçanetas externas embutidas ou ocultas e comandos elétricos de abertura das portas. Existem mecanismos mecânicos de emergência para destravá-las, mas, segundo as autoridades chinesas, sua localização ou operação pode ser pouco intuitiva. No caso da Tesla, a própria fabricante reconheceu que o dispositivo pode ser difícil de identificar porque sua cor se confunde com a do acabamento interno.

A situação se torna crítica quando uma batida provoca a interrupção do sistema elétrico de baixa tensão. Sem alimentação, o comando elétrico das portas pode deixar de funcionar e os ocupantes precisam recorrer ao destravamento mecânico de emergência. Segundo a Administração Estatal de Regulamentação do Mercado da China (SAMR), dificuldades para identificar ou operar esses mecanismos podem atrasar a saída dos passageiros e também dificultar o acesso de quem tenta fazer o resgate pelo lado de fora.

A preocupação aumentou depois de acidentes com carros elétricos nos quais os ocupantes ficaram presos. Um dos casos de maior repercussão na China envolveu um Xiaomi SU7 que, depois de uma colisão, pegou fogo. Pessoas que tentavam socorrer o motorista não conseguiram abrir as portas para retirá-lo. O caso passou a integrar a crescente preocupação com os riscos desses sistemas em situações de emergência.



Instruções do Tesla Model Y para abertura de emergência

Instruções do Tesla Model Y para abertura de emergência

Foto de: Reprodução

A Tesla responde, de longe, pela maior parcela do recall. São 2,98 milhões de unidades dos Model 3, Model Y, Model S e Model X, entre carros produzidos na China e importados. A convocação começa em 25 de setembro e se concentra principalmente nos Model 3 e Model Y fabricados localmente.

Segundo a documentação apresentada pela própria Tesla às autoridades chinesas, os dispositivos mecânicos de abertura de emergência podem ser difíceis de identificar e operar. Para corrigir o problema, a fabricante usará etiquetas indicando sua localização e fará uma atualização remota do software com uma função que baixa automaticamente os vidros depois de uma colisão, facilitando a saída dos ocupantes ou o acesso dos socorristas.

E não é só a Tesla. A Xiaomi convocou cerca de 390 mil veículos, enquanto a Leapmotor chamou aproximadamente 371 mil e a Xpeng, 264 mil. A Geely e outras fabricantes chinesas também anunciaram campanhas por problemas relacionados aos sistemas de abertura das portas. As correções variam conforme o modelo, mas envolvem principalmente uma identificação mais clara dos comandos internos de emergência e alterações de software.



Maçanetas retráteis e embutidas (3)

Maçanetas retráteis e embutidas 

Foto de: Reprodução

Questão de estilo e aerodinâmica

Maçanetas retráteis e embutidas existem há muitas décadas, como se pode ver nos Cisitalia 202 (1947) e nos Mercedes 300 SL “Asa de Gaivota” (1954). Mais recentemente, porém, essas maçanetas ganharam mecanismos elétricos e se popularizaram com os Tesla Model S (2012), espalhando-se por numerosas marcas, especialmente entre os elétricos chineses. Além do visual mais limpo, o recurso contribui, ainda que modestamente, para reduzir o arrasto aerodinâmico.

O problema é que a sofisticação trouxe uma camada adicional de complexidade. Em muitos projetos, pressionar uma maçaneta ou um botão não movimenta diretamente a fechadura: o comando é elétrico. Em caso de falha da alimentação de baixa tensão, entra em cena o sistema mecânico de emergência, acionado internamente por cabo. Se esse recurso estiver escondido, mal identificado ou exigir uma operação pouco intuitiva, segundos preciosos podem ser perdidos depois de um acidente.



Maçanetas retráteis e embutidas (1)

Foto de: Reprodução

A China já decidiu atacar o problema pela raiz. A partir de 1º de janeiro de 2027, entrará em vigor uma regulamentação que restringe as maçanetas ocultas e exige dispositivos mecânicos de abertura acessíveis tanto pelo interior quanto pelo exterior das portas. O país é o primeiro a adotar uma restrição desse tipo, impondo limites a uma solução de design que se tornou característica de muitos carros elétricos.

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O assunto também está sendo acompanhado nos Estados Unidos. A NHTSA, agência norte-americana de segurança no trânsito, já recebeu relatos de dificuldades para abrir as portas de modelos da Tesla e estuda novos requisitos de segurança para reduzir o risco de ocupantes ficarem presos em caso de falha elétrica. 

No mercado de acessórios, já há até etiquetas e alças de cores vivas para facilitar a localização e o acionamento dos comandos mecânicos de emergência no cenário confuso que se segue a uma colisão. Apesar das investigações, até agora a Tesla não anunciou nos EUA um recall semelhante ao realizado na China. 

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