Oliver Blume conseguiu aprovar uma ampla reestruturação na Volkswagen, mas o acordo que prevê novos cortes de pessoal deixa justamente os problemas mais difíceis para depois.
O CEO recebeu apoio unânime do conselho de supervisão, evitando uma disputa com representantes dos trabalhadores e com o governo da Baixa Saxônia.
A aprovação trouxe alívio imediato aos investidores, com as ações da Volkswagen avançando quase 10% na abertura de sexta-feira em Frankfurt.
O pacote, porém, não define o futuro das fábricas de Emden, Zwickau e Hannover, além da unidade da Audi localizada em Neckarsulm.
Essas quatro plantas estão entre os pontos mais delicados porque a administração afirma não haver projetos competitivos confirmados para substituir os modelos atualmente produzidos nelas.

A Volkswagen pretende estudar alternativas como novos parceiros industriais, compradores e atividades fora da produção tradicional de automóveis para aproveitar a capacidade disponível.
Empresas chinesas aparecem entre os possíveis parceiros, embora encontrar soluções economicamente viáveis seja difícil diante dos elevados custos das operações industriais alemãs.
Blume também conseguiu retirar temporariamente da mesa uma proposta de separação entre Volkswagen Passenger Cars e Components, medida que enfrentava forte resistência interna.
Em troca dessas concessões, representantes dos trabalhadores aceitaram o restante do Future Plan 2030, que prevê aproximadamente 50.000 cortes adicionais de postos.
Esse total se soma a uma quantidade semelhante já prevista anteriormente, embora os novos 50.000 funcionem como referência para o planejamento financeiro da companhia.
A quantidade final poderá ser menor caso a Volkswagen encontre economias equivalentes em outras áreas ou consiga melhorar sua rentabilidade acima das expectativas atuais.
Demissões compulsórias permanecem descartadas até o final de 2030 pelos acordos em vigor, limitando as opções disponíveis para reduzir rapidamente os custos de pessoal.
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A fabricante também pretende diminuir sua linha de modelos aproximadamente pela metade até 2035 e reduzir em cerca de três quartos a complexidade da oferta.
Outro objetivo é atingir margem operacional de 9% em 2030, considerando vendas anuais próximas de 9 milhões de veículos dentro do grupo.
Entre 2027 e 2031, a Volkswagen prevê cerca de €135 bilhões (R$ 851,9 bilhões) em investimentos de capital e despesas com pesquisa e desenvolvimento.
Transformar essas metas em economia concreta será agora a parte mais difícil, especialmente porque a estrutura de governança da Volkswagen exige conciliar interesses frequentemente divergentes.
Tim Rokossa, do Deutsche Bank, afirmou que a dúvida do mercado sempre esteve menos nos problemas existentes e mais na capacidade de resolvê-los dentro dessa estrutura.
O acordo somente apareceu após negociações que avançaram pela noite de quarta-feira e continuaram na quinta, acompanhadas por conversas entre participantes centrais.
Olaf Lies, primeiro-ministro da Baixa Saxônia, e Hans Dieter Pötsch, presidente do conselho de supervisão, tiveram participação importante na construção do entendimento.
Pötsch conseguiu aproximar acionistas e representantes dos trabalhadores, utilizando sua relação tanto com as famílias Porsche-Piëch quanto com integrantes da estrutura sindical.
Christiane Benner, líder do IG Metall, e Daniela Cavallo, presidente do conselho de trabalhadores, deixaram claro que o consenso não encerra as divergências existentes.
As duas afirmaram que o trabalho está apenas começando e rejeitaram qualquer solução que concentre o peso da reestruturação exclusivamente sobre os funcionários.
Blume ganha tempo e apoio político, mas ainda precisa lidar com custos elevados, excesso de capacidade e investimentos pesados em EVs e software.
Ao mesmo tempo, fabricantes chinesas ampliam presença na Europa, tarifas americanas continuam pressionando o comércio e a estrutura industrial alemã permanece cara para a Volkswagen.
Kevin Thozet, da Carmignac, resumiu o cenário ao destacar que a China produz muitos carros enquanto a Europa mantém capacidade industrial acima da demanda.
A aprovação do plano afasta uma disputa imediata, mas deixa para Blume a tarefa mais complexa: decidir o destino das fábricas e provar que os cortes realmente melhorarão a competitividade.
