Hoje, qualquer carro é desenvolvido com incontáveis horas de simulação computadorizada e testes em túnel de vento. Há cerca de um século, porém, reduzir a resistência do ar ainda era um território pouco explorado pela indústria automobilística.
O Pebble Beach Concours d’Elegance, realizado no último domingo (16), teve uma classe dedicada aos streamliners pré-guerra. São automóveis criados nas décadas de 1920 e 1930, quando engenheiros e designers começaram a abandonar as carrocerias altas e retangulares, com para-brisas planos e quase verticais, em busca de formas capazes de atravessar o ar com maior facilidade, aumentar a velocidade máxima e diminuir o consumo.
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Quando a aviação começou a influenciar os carros
Os primeiros túneis de vento surgiram antes mesmo da popularização do automóvel, e Gustave Eiffel, o engenheiro responsável pela famosa torre parisiense, teve papel importante no desenvolvimento dessas instalações no início do século XX.
A evolução da aviação acelerou as pesquisas e, pouco a pouco, esse conhecimento começou a chegar aos carros. Nomes como Paul Jaray, Edmund Rumpler, Hans Ledwinka, Carl Breer, Wunibald Kamm, Ferdinand Porsche e Erwin Komenda mudaram o jeito de desenhar automóveis.
O conceito de streamlining virou uma febre no design. Forma e função se juntaram em superfícies contínuas e linhas que sugeriam velocidade. Para-brisas passaram a ser divididos e inclinados para vencer o ar, enquanto os faróis foram incorporados aos para-lamas.
Alguns desses carros foram efetivamente desenvolvidos para reduzir o arrasto; outros simplesmente adotaram a nova estética. A seleção de Pebble Beach permitiu observar diferentes interpretações dessa busca pela aerodinâmica antes da Segunda Guerra Mundial.

Austro Daimler ADR8 Oeffag Alpine Sedan 1932
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Austro-Daimler ADR8 Oeffag Alpine Sedan (1932)
Ferdinand Porsche deixou a Austro-Daimler em 1923 para assumir o departamento técnico da Daimler, em Stuttgart. A genética do modelo ADR8, contudo, ainda é fruto direto do trabalho dele: estão lá o chassi de tubo central e a suspensão traseira independente por eixos oscilantes, arquitetura bastante avançada para o início dos anos 1930.
O motor de oito cilindros em linha tinha bloco de liga leve, 4,6 litros e comando de válvulas no cabeçote. Rendia 120 cv e trabalhava com um câmbio manual de quatro marchas com overdrive.
Mas o que nos interessa aqui é a carroceria fechada do tipo Alpine Sedan, construída pela Oeffag (Österreichische Flugzeugfabrik AG), encarroçadora austríaca vinculada à própria Austro-Daimler. O desenho combinava proporções imponentes com linhas aerodinâmicas bastante refinadas para a época e acabamento artesanal de alto luxo.

Duesenberg J Mudd Coupe Bohman e Schwartz 1932
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Duesenberg J Mudd Coupe (1932)
Esse carro nasceu em 1932 como um Duesenberg Model J convencional de entre-eixos curto (Short Wheelbase — SWB), encarroçado originalmente como um sóbrio sedã de quatro portas.
Anos depois, o veículo foi adquirido pelo Dr. Seeley G. Mudd, médico da Califórnia. Insatisfeito com as linhas tradicionais, Mudd encomendou uma transformação completa aos encarroçadores Bohman & Schwartz, instalados em Pasadena. O resultado é um cupê aerodinâmico feito sob medida, com conceitos experimentais de arrasto e fluxo de ar que surgiam naquela época.
Originalmente aspirado, o motor de oito cilindros em linha DOHC de 6,9 litros recebeu um supercharger de fábrica, convertendo a especificação mecânica para SJ. Assim, a potência saltava de 270 cv para 325 cv. Imaginem o que isso representava nos anos 1930… Completava o conjunto o vistoso coletor de escape exposto no lado direito do capô.

Hispano-Suiza J12 Coupé de Ville Fernandez & Darrin – 1934 (2)
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Hispano-Suiza J12 Coupé de Ville Fernandez & Darrin (1934)
Em 1934, o banqueiro britânico Anthony Gustav de Rothschild encomendou não um, mas dois Hispano-Suiza com carrocerias praticamente gêmeas. A dupla era formada por um K6 de seis cilindros, destinado a ocasiões formais, e por um ainda mais espetacular J12, equipado com motor V12.
As carrocerias ficaram a cargo da Fernandez et Darrin, de Paris. Os dois automóveis receberam as mesmas cores externas, em dois tons de azul, além de compartilharem o perfil arredondado e a traseira em forma de gota.
O K6 foi construído sobre o chassi de entre-eixos longo e recebeu uma carroceria do tipo Coupé Chauffeur, com o motorista separado do compartimento dos passageiros. Já o J12 mostrado aqui ganhou uma carroceria Coupé de Ville, de proporções mais esportivas, para ser guiado pelo próprio dono. Sob o enorme capô estava o gigantesco V12 de 9,4 litros e 220 cv.

Voisin C28 Aérosport Coupé (1938) a
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Voisin C28 Aérosport Coupé (1936)
Gabriel Voisin era construtor de aviões antes de se dedicar aos automóveis e levou para seus carros soluções e materiais vindos diretamente da aviação.
O C28 Aérosport é uma das expressões mais espetaculares dessa filosofia. Sua carroceria de alumínio eliminava visualmente os tradicionais para-lamas separados e adotava uma traseira do tipo fastback, formando um perfil muito mais contínuo que o dos automóveis convencionais daquele período.
Além das soluções aerodinâmicas, era um carro extremamente sofisticado, com teto solar deslizante de acionamento pneumático. Dos três exemplares construídos, resta apenas um.

Dubonnet Xenia Saoutchik – 1937 (2)
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Dubonnet Xenia Saoutchik (1937)
Outro carro igualmente futurista é o Dubonnet Xenia. Construído para o ás da aviação André Dubonnet, combinava soluções mecânicas pouco convencionais com uma carroceria espetacular de linhas fluidas, obra do encarroçador francês Saoutchik. Entre seus detalhes mais marcantes estavam o para-brisa envolvente, revolucionário numa época de vidros planos, e as portas que deslizavam para trás.
Esse exemplar único foi feito sobre um chassi Hispano-Suiza H6B profundamente modificado e recebeu suspensão independente nas quatro rodas, desenvolvida pelo próprio Dubonnet. Os freios já traziam servoassistência nos dois eixos, uma sofisticação para a época. O nome Xenia era uma homenagem à falecida esposa do aviador.

Talbot-Lago T150-C-SS Coupé Goutte d’Eau Figoni & Falaschi – 1937
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Talbot-Lago T150-C-SS Coupé “Goutte d’Eau” (1937)
É uma das maiores obras-primas do design automotivo mundial. Seu apelido significa “gota d’água” e descreve perfeitamente a carroceria arredondada e aerodinâmica criada pela Figoni & Falaschi, de Paris, comandada pelo italiano Giuseppe Figoni.
O desenho eliminava as linhas retas: para-lamas, teto e traseira formavam volumes contínuos, enquanto os faróis integrados à carroceria e o para-brisa bem inclinado reforçavam a aparência futurista. Cada exemplar era construído artesanalmente — não existem dois Goutte d’Eau idênticos.
Por baixo da escultura estava o Talbot-Lago T150-C-SS, versão de chassi curto e mais esportiva do T150-C. Seu motor de seis cilindros em linha e 4 litros, com câmaras hemisféricas, rendia 140 cv e trabalhava com uma caixa Wilson pré-seletiva de quatro marchas. O conjunto tinha pedigree de competição: versões do T150-C participaram de provas como as 24 Horas de Le Mans.

Alfa Romeo 8C 2900B Touring Berlinetta – 1938 (3)
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Alfa Romeo 8C 2900B Touring Berlinetta (1938)
O modelo combina a mecânica dos carros de Grand Prix com a arte da Carrozzeria Touring. Desenvolvido sobre o chassi de entre-eixos longo (Lungo), recebeu um capô comprido para abrigar o motor de oito cilindros em linha e 2,9 litros, alimentado por dois compressores volumétricos. Sua cabine recuada fluía suavemente até a traseira.
A Carrozzeria Touring empregou no Alfa Romeo 8C 2900B seu método construtivo patenteado Superleggera, com uma estrutura de finos tubos de aço revestida por painéis de alumínio moldados à mão. A técnica permitia criar curvas complexas e orgânicas sem recorrer a uma carroceria excessivamente pesada.
Elementos como os para-lamas dianteiros em forma de gota, a grade bem inclinada e as saias traseiras com aberturas não eram meros ornamentos: também ajudavam a melhorar a passagem do ar em um automóvel capaz de superar os 180 km/h.

Mercedes-Benz 320 (W 142) Stromlinien-Limousine – 1938 (1)
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Mercedes-Benz 320 Stromlinien-Limousine (1938)
Desenvolvido sobre a base do luxuoso Mercedes-Benz 320 (W 142), esse protótipo recebeu uma carroceria fechada bem diferente das convencionais. Tinha para-brisa mais inclinado, teto em caimento suave, uma longa traseira afilada, para-lamas traseiros carenados e um perfil orgânico pensado para reduzir a resistência do ar nas recém-construídas Autobahnen alemãs.
A carroceria foi desenvolvida com o auxílio dos estudos aerodinâmicos da Mercedes-Benz, que já investigava intensamente o assunto em seus carros de competição e de recordes. O resultado teria alcançado um Cx de 0,36, excepcional numa época em que os automóveis convencionais apresentavam coeficientes próximos a 0,60.
A aerodinâmica permitia compensar a potência relativamente modesta do motor de seis cilindros em linha e 3,2 litros, que rendia apenas 78 cv. Enquanto um 320 convencional chegava aos 130 km/h, a Stromlinien-Limousine podia alcançar cerca de 150 km/h, demonstrando as vantagens de atravessar o ar com maior eficiência.
Sua trajetória comercial foi interrompida pelo início da Segunda Guerra Mundial, em 1939. A Stromlinien-Limousine nunca chegou à produção em série.

Phantom Corsair – 1938 (1)
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Phantom Corsair (1938)
Se o Voisin já parecia avançado, o Phantom Corsair dava a impressão de ter vindo de outro planeta. Concebido em 1938 pelo norte-americano Rust Heinz, herdeiro da família responsável pela marca de ketchup, e construído artesanalmente pela Bohman & Schwartz, esse enorme cupê experimental recebeu uma carroceria baixa de seis lugares, com rodas dianteiras cobertas e superfícies extremamente limpas.
A mecânica vinha de um dos carros de série mais avançados da época: o Cord 810, com motor V8 de 125 cv, câmbio com pré-seletor elétrico e tração dianteira. Heinz, porém, morreu em um acidente de trânsito em 1939, e o futurista Corsair nunca chegou à produção em série.

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Tatra T77 A (1938)
Projetado sob a liderança do engenheiro austríaco Hans Ledwinka e desenhado por Erich Übelacker, com inspiração nas ideias do pioneiro da aerodinâmica Paul Jaray, o luxuoso modelo tchecoslovaco foi o primeiro carro produzido em série a ser desenhado com o auxílio de um túnel de vento. Seu lançamento ocorreu em 1934.
Sua arquitetura era tão incomum quanto a carroceria. O Tatra T77 tinha motor V8 traseiro de 3,4 litros refrigerado a ar, enquanto a carroceria apresentava formas arredondadas, traseira longa e uma enorme barbatana central, destinada a melhorar a estabilidade direcional em velocidade. O fundo era plano e vedado. Alguém aí se lembrou do Volkswagen?
O resultado impressiona até hoje. O Tatra conseguia chegar perto dos 150 km/h, marca excepcional para um automóvel dos anos 1930 equipado com modestos 75 cv.

Delahaye 165 Figoni et Falaschi Cabriolet – 1938 (1)
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Delahaye 165 Figoni et Falaschi Cabriolet (1938)
Esse deslumbrante conversível desenhado pelos carrossiers Figoni & Falaschi é uma das expressões máximas do design automotivo do período entre guerras. Apresentado no Salão do Automóvel de Paris de 1938, o modelo impressionou o público por suas linhas aerodinâmicas, marcadas pelos para-lamas em forma de gota d’água que fluíam por toda a carroceria. Os detalhes cromados curvos ao longo do capô também faziam parte da escultura.
Sob o capô de proporções imponentes, o Delahaye Type 165 abrigava um motor V12 de alto desempenho derivado diretamente dos carros de corrida da marca, o que conferia ao modelo uma mecânica tão sofisticada quanto o visual.
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