Depois de quase 30 anos de presença no maior mercado automotivo do mundo, a Chevrolet está se despedindo dos consumidores chineses. A marca da gravata dourada, tão acostumada a ser protagonista em mercados como Brasil e Estados Unidos, ficou de fora dos novos planos da General Motors para a China e não terá novos modelos destinados ao país.
A ironia é que a General Motors, sua controladora, não está abandonando a China. Pelo contrário: segundo o portal GM Authority, a gigante acaba de renovar por mais 20 anos sua parceria com a SAIC Motor, até 2047. Só que, nesta nova fase, os holofotes estarão sobre Buick e Cadillac.
13
Saída da Chevrolet já vinha sendo preparada
Os primeiros sinais mais concretos apareceram ainda em maio de 2025. Na ocasião, veículos chineses informaram que projetos futuros da Chevrolet haviam sido adiados por tempo indeterminado e que os modelos ainda produzidos localmente caminhavam para o encerramento de fabricação. Foi o caso, por exemplo, do Tracker feito por lá.
Outros projetos que teriam sido congelados incluíam uma versão chinesa do Equinox EV, um novo Equinox a combustão e uma atualização do Blazer de três fileiras vendido exclusivamente naquele mercado.

Versão local do Chevrolet Equinox EV está entre produtos cancelados para a China
A situação comercial também já era delicada. No terceiro trimestre de 2024, a Chevrolet vendeu apenas 8.100 carros na China, queda de 84% em relação ao mesmo período anterior. A Buick, embora muito maior dentro da estrutura da GM, também havia recuado 55%, para 67.800 unidades.Depois disso, a General Motors deixou de divulgar resultados detalhados por marca.
Segundo informações levantadas pelo GM Authority naquele período, a Chevrolet já negociava menos de 1.500 carros por mês no país. Perguntada, a SAIC-GM negou publicamente que estivesse preparando a retirada. Lu Xiao, diretor-geral da empresa, chegou a afirmar em 2025 que a companhia “não desistiria da Chevrolet”.

Modelos maiores e refinados, como o Chevrolet Tahoe, foram importados até 2025
Foto de: General Motors
Importações também acabaram
Ainda em 2025, o grupo suspendeu as importações de veículos fabricados nos Estados Unidos por meio da Durant Guild, divisão criada para comercializar produtos mais exclusivos. A operação vendia modelos como Chevrolet Tahoe e Corvette, GMC Yukon e Hummer EV, além do Cadillac Celestiq. No caso do Tahoe, inclusive, a China recebeu uma configuração específica equipada com motor 2.7 turbo de quatro cilindros.
Todos os trabalhos, no entanto, foram paralizados em 19 de maio de 2025, em meio a guerra comercial entre os Estados Unidos e a China, bem como as incertezas sobre os negócios por lá. Segundo a própria empresa, os importados representavam menos de 0,1% de suas vendas no mercado chinês. Lojas da operação foram fechadas ou tiveram seus planos de inauguração cancelados, enquanto os veículos que já estavam no país continuaram sendo entregues até o fim dos estoques.

69
Fonte: Thomas Tironi
GM fica na China até pelo menos 2047
A retirada da Chevrolet não deve ser confundida com uma saída da General Motors da China. Nesta semana, GM e SAIC Motor renovaram por mais 20 anos os contratos das joint ventures SAIC-GM e SAIC-GM-Wuling, estendendo a parceria até 2047.
Criada em 1997, a SAIC-GM já produziu e vendeu mais de 20 milhões de veículos. Até agora, a operação reunia Chevrolet, Buick e Cadillac, enquanto a SAIC-GM-Wuling é responsável principalmente pelas marcas Wuling e Baojun. A partir da nova fase, Buick e Cadillac serão os pilares da SAIC-GM no mercado doméstico. A operação também pretende acelerar sua oferta de veículos eletrificados e ampliar a atuação internacional.

49
Fonte: Motor1 Brasil
E aí aparece um detalhe particularmente relevante para nós: a própria General Motors cita América do Sul entre as regiões que poderão receber veículos desenvolvidos ou produzidos pela estrutura chinesa, ao lado de México, Oriente Médio, África e Ásia-Pacífico.
Hoje, a marca já trabalha no país com dois modelos de origem chinesa e de sua parceria com a SAIC: o Spark EUV e o Captiva EV, dois elétricos de baixo custo originalmente chamados de Wuling Starlight S e Baojun Yep.
Ambos tem tido desempenho razoável no país, vendendo mais do que os Chevrolet elétricos vindos da América do Norte, e já estão começando a ser montados e gradualmente nacionalizados no PACE, no Ceará.
O fim da oferta local da Chevrolet também não significa que não serão mais feitos carros da marca para o mercado externo. Além dos frutos de suas parcerias, a própria norte-americana deverá continuar, pelo menos por mais algum tempo, fazendo carros para exportação.

Buick, que já vendeu até Corsa, sempre teve mais força por lá do que a Chevrolet
Foto de: Chevrolet
Chevrolet ficou espremida dentro da própria GM
A perda de espaço também tem relação com a posição peculiar da Chevrolet dentro do portfólio chinês da General Motors. Diferentemente dos Estados Unidos, Canadá, do Brasil e de alguns países da América Latina e do Oriente Médio, ela nunca ocupou o mesmo protagonismo na China.
Historicamente, a Buick teve presença muito maior naquele mercado e chegou a vender várias vezes mais carros que a Chevrolet. Por lá, inclusive, a operação chegou a contar com uma versão local do nosso Corsa B sedã e perua, tendo foco muito mais generalista do que tem em outros mercados. Nos últimos anos, a situação ficou ainda mais complicada com o avanço da Wuling, que ganhou enorme volume com modelos acessíveis e eletrificados.

34
Fonte: Mario Villaescusa / Motor1.com
E o Brasil nessa?
A China teve papel importante na Chevrolet brasileira na última década. Foi da cooperação entre as engenharias da GM no Brasil e na China, com participação da SAIC, que nasceu a plataforma GEM, base da segunda geração de Onix e Onix Plus e da terceira geração do Tracker.
A família foi pensada para diversos mercados emergentes, mas acabou encontrando seu principal sucesso justamente na América Latina. Na China, Onix e Tracker nunca repetiram o desempenho alcançado por aqui, enquanto a Chevrolet perdia espaço para Buick, Wuling e fabricantes locais.
Como a Chevrolet já divulgou que a próxima geração de seus compactos por aqui terá colaboração da Hyundaii, essa mudança também marcará o fim dos projetos da base GEM por aqui. Os próprios modelos vendidos hoje já foram atualizados sem ajuda da China, tendo seus facelifts desenvolvidos de forma caseira e mais focados no público local.
Esses produtos, no entanto, só devem aparecer mais próximo do fim desta década. Até lá, um bom indício do que esperar está no Hyundai i20, que acaba de chegar às lojas e cuja arquitetura deverá servir de ponto de partida para os futuros compactos da Chevrolet. A marca poderá aproveitar também motorização, transmissão e outros componentes técnicos, mantendo carroceria e identidade próprias.
Queremos a sua opinião!
O que você gostaria de ver no Motor1.com?
Responda à nossa pesquisa de 3 minutos.
– Equipe do Motor1.com