Números muito abaixo das promessas aproximam a Tesla Cybertruck de um precedente histórico que a Ford provavelmente preferiria manter isolado: o fracasso do Edsel.
Apresentado em 1957 como um automóvel completamente diferente, o Ford Edsel chamou atenção pela grade oval vertical, frequentemente comparada a uma coleira de cavalo.
A Ford previa vender 200.000 unidades no primeiro ano, mas terminou com menos de um terço desse objetivo e viu o desenho virar alvo de piadas.
A Cybertruck começou a ser entregue em 2023, após Elon Musk classificá-la como o melhor produto já desenvolvido pela Tesla.
O executivo estimou uma produção anual superior a 250.000 unidades, dependendo da demanda, mas o primeiro ano terminou abaixo de um sexto dessa projeção.

A aparência angular e formada por grandes superfícies planas também passou a ser motivo de comentários, repetindo parte da reação enfrentada pelo Edsel.
Somente 7.133 unidades foram registradas nos Estados Unidos até maio, segundo dados da S&P Global Mobility fornecidos à Bloomberg News.
Esse total ainda recebe ajuda de outras empresas comandadas por Musk, pois a SpaceX vem formando uma frota própria de Cybertrucks.
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As vendas do Edsel diminuíram a cada ano, levando a Ford a encerrar o modelo em 1959, apenas dois anos depois da apresentação.
A Tesla não divulga separadamente as entregas da picape em seus relatórios financeiros, concentrando a atenção dos investidores em condução autônoma e robótica.

Garrett Nelson, analista de ações da CFRA Research, considera improvável que a empresa encerre a Cybertruck durante os próximos um ou dois anos.
Segundo ele, uma reestilização ou nova configuração poderia ser tentada para recuperar vendas, embora essa iniciativa provavelmente produzisse pouco resultado.
Nelson acredita que o cenário mais provável será uma perda gradual de relevância, sem um encerramento imediato anunciado pela fabricante.
Outros modelos também ficaram conhecidos por expectativas elevadas, incluindo o DeLorean de aço inoxidável apresentado por John DeLorean no começo dos anos 1980.
Problemas de qualidade e um preço superior ao dobro da média dos automóveis novos limitaram sua produção total a aproximadamente 9.000 unidades.
A Pontiac lançou o Aztek em 2000, mas as críticas à carroceria revestida de plástico levaram a uma reformulação poucos meses depois.
Segundo a Edmunds, o SUV alcançou apenas 37% da meta de 75.000 unidades em seu melhor ano e deixou a linha em 2005.
Nenhum deles, porém, começou com projeções comerciais tão ambiciosas quanto aquelas anunciadas para o Edsel e a Cybertruck.
A Ford promoveu o Edsel em um especial televisivo no horário nobre, destacando grade vertical, velocímetro giratório e transmissão Teletouch por botões.
O preço inicial ficava abaixo de US$ 2.500 (R$ 12.800), equivalentes a cerca de US$ 30.000 (R$ 153.800) atualmente.
A recessão norte-americana de 1958 reduziu os gastos das famílias, enquanto o estilo do modelo pareceu ultrapassado apesar das extensas pesquisas conduzidas pela Ford.
Don Sherman, jornalista e historiador automotivo, resume que a maioria dos consumidores simplesmente considerava o automóvel muito pouco atraente.
Musk revelou a Cybertruck em 2019 com uma apresentação inspirada em Blade Runner e prometeu resistência superior à das picapes tradicionais.
Franz von Holzhausen atingiu a carroceria de aço com uma marreta sem deixar marcas, mas uma esfera metálica quebrou o vidro anunciado como reforçado.
Mesmo assim, milhares de reservas foram feitas após a divulgação de um preço inicial de US$ 39.900 (R$ 204.500).
As primeiras entregas ocorreram anos depois do previsto, com compradores iniciais pagando mais de US$ 100.000 (R$ 512.600).
Stephanie Valdez Streaty, diretora de análises da Cox Automotive, define a Cybertruck como um produto de nicho, caro e visualmente capaz de dividir opiniões.
Sua carroceria de aço inoxidável também criou dificuldades industriais, especialmente nos processos de conformação e união das grandes peças externas.
O Edsel enfrentou limitações semelhantes na produção, pois dividia linhas com modelos Ford e Mercury, exigindo mudanças constantes de ferramentas sem redução do ritmo.
Algumas unidades chegaram incompletas às concessionárias, levando componentes no porta-malas para instalação posterior pelas próprias equipes de atendimento.
A transmissão Teletouch também confundia motoristas, pois os botões ficavam no centro do volante, posição normalmente associada ao acionamento da buzina.
As atividades públicas de Musk ampliaram a rejeição à Tesla após ele liderar doações individuais na eleição presidencial de 2024 e apoiar Donald Trump.
Sua participação no Department of Government Efficiency, responsável por cortes em programas e equipes federais, motivou manifestações e campanhas de boicote à marca.
O Edsel gerou perdas de aproximadamente US$ 350 milhões (R$ 1,794 bilhão), equivalentes atualmente a US$ 2,5 bilhões (R$ 12,815 bilhões).
Hoje, exemplares restaurados podem alcançar US$ 35.000 (R$ 179.400), impulsionados pelo interesse de colecionadores em sua raridade e importância histórica.
Jessica Caldwell, diretora de análises da Edmunds, avalia que o estilo incomum sempre limitaria a Cybertruck a um público menor e distante dos compradores pragmáticos.
Para a especialista, a picape tornou-se uma vitrine móvel das opiniões divididas sobre Musk, produzindo tanta atenção quanto desgaste para a própria Tesla.
