A presença chinesa nas ruas brasileiras ganhou peso suficiente para entrar na negociação entre montadoras e governo: veículos vindos da China já representam mais da metade das importações e ocupam 11,3% do mercado interno.
Esse avanço também alcança o campo, onde as importações de tratores agrícolas chineses cresceram 117% entre janeiro e setembro, somando 5,2 mil unidades, enquanto as compras externas de tratores de todas as origens subiram 42%.
Entre automóveis, comerciais leves, ônibus e caminhões, o Brasil licenciou 463,9 mil veículos importados nos primeiros nove meses, alta de 30,4% em relação ao mesmo período de 2025, segundo a Anfavea.
Os veículos leves respondem por quase todo esse volume, com 459,4 mil emplacamentos até setembro, enquanto os pesados, categoria que reúne caminhões e ônibus, registraram 4,5 mil licenciamentos de unidades importadas.
A presença dos eletrificados nesse total também chama atenção: 262 mil veículos trazidos do exterior são EVs ou híbridos, número 82,7% superior ao registrado nos primeiros nove meses do ano passado.
Só da China chegaram 254,9 mil veículos entre janeiro e setembro, avanço de 106,4% que ajuda a situar o tamanho da disputa por regras para empresas sem produção instalada no Brasil.
Foi nesse contexto que representantes da Anfavea se reuniram na quinta-feira, 29, com o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin (PSB), para voltar a discutir o crescimento das importações após a eleição.
A associação, que representa parte das montadoras instaladas no país, apresentou um balanço do mercado automotivo nos últimos dez anos, abrangendo veículos leves, pesados e máquinas agrícolas e de construção.
Presidente da entidade, Igor Calvet reiterou à AB que a entrada crescente de veículos estrangeiros preocupa quando não vem acompanhada de compromisso das empresas com a produção dentro do território brasileiro.
Para Calvet, a diferença nas condições de competição entre modelos nacionais e importados pode comprometer investimentos, empregos e o desenvolvimento da cadeia produtiva, ponto que orienta as propostas levadas ao governo federal.
A Anfavea defende medidas para manter as importações em um patamar que não prejudique as vendas internas, incluindo salvaguardas comerciais temporárias e sobretaxa para veículos trazidos por empresas sem produção nacional.
Outra proposta é criar uma CIDE, Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico, automotiva sobre importações, além de estabelecer cotas específicas para veículos chineses que entram no mercado brasileiro.
Uma das ideias apresentadas por Calvet prevê negociar com a China cotas equivalentes a 2,5% a 3% do mercado brasileiro, faixa estimada em cerca de 75 mil a 90 mil veículos por ano.
Esse limite seria destinado a empresas sem etapas fabris no país, e a discussão inclui modelos eletrificados, tendo como referência experiências internacionais com tarifas e restrições à importação de veículos.
Segundo o presidente da Anfavea, Geraldo Alckmin se comprometeu a encaminhar as sugestões apresentadas pela entidade às áreas técnicas e jurídicas do governo, mas não houve anúncio de decisões concretas na reunião.
As negociações seguem sem prazo definido para uma decisão, e a expectativa informada por Calvet é retomar as discussões sobre as propostas em novembro.
Fonte: Automotive Business